31.5.06

Madrugada

Palco sagrado dos sonhos idealizados, impossíveis.
Subversão absoluta de regras e conceitos,
quando os olhos fecham
e os corpos nus transcendem,
mimetizam uma realidade intensa e pura.

Improvisação, contratempos, pausas...

As línguas dançam a canção da alma
Não se perguntam pelo fim.
Os corpos sem governo
brincam (juntos) de acreditar.

Enredo, distância, universos em colisão.
Tudo é um sonho...

Na luz quente do sol da tarde,
derreto os ponteiros.

Desejo a madrugada.

20.5.06

Tentando falar de esperanças

La maza
(Mercedes Sosa)

(Escute)

Si no creyera en la locura
de la garganta del sinsonte
si no creyera que en el monte
se esconde el trino y la pavura

si no creyera en la balanza
en la razón del equilibrio
si no creyera en el delirio
si no creyera en la esperanza

si no creyera en lo que agencio
si no creyera en mi camino
si no creyera en mi sonido
si no creyera en mi silencio

qué cosa fuera
qué cosa fuera la maza sin cantera
un amasijo hecho de cuerdas y tendones
un revoltijo de carne con madera
un instrumento sin mejores pretensiones
que lucecitas montadas para escena

qué cosa fuera, corazón, qué cosa fuera
qué cosa fuera la maza sin cantera
un testaferro del traidor de los aplausos
un servidor de pasado en copa nueva
un eternizador de dioses del ocaso
júbilo hervido con trapo y lentejuela

qué cosa fuera, corazón, qué cosa fuera
qué cosa fuera la maza sin cantera

si no creyera en lo más duro
si no creyera en el deseo
si no creyera en lo que creo
si no creyera en algo puro

si no creyera en cada herida
si no creyera en la que ronde
si no creyera en lo que esconde
hacerse hermano de la vida

si no creyera en quien me escucha
si no creyera en lo que duele
si no creyera en lo que quede
si no creyera en lo que lucha

qué cosa fuera
qué cosa fuera la maza sin cantera
un amasijo hecho de cuerdas y tendones
un revoltijo de carne con madera
un instrumento sin mejores pretensiones
que lucecitas montadas para escena

qué cosa fuera, corazón, qué cosa fuera
qué cosa fuera la maza sin cantera
un testaferro del traidor de los aplausos
un servidor de pasado en copa nueva

qué cosa fuera, corazón, qué cosa fuera
qué cosa fuera la maza sin cantera
un eternizador de dioses del ocaso
júbilo hervido con trapo y lentejuela
qué cosa fuera, corazón, qué cosa fuera
qué cosa fuera la maza sin cantera

5.5.06

Madalena - Numa prece

Ensina-me tua vida, tua fé, ensina tua luta, tuas dores, dúvidas mais atrozes, me ensina.
Ensina-me teu martírio e as escolhas descabidas, embora humanamente éticas diante do oprimido.
Ensina-me teu silêncio, retiro, desterro, vazio.
Ensina.
Ensina-me teu amor, ensina de novo a dor de ser tua não podendo conter-te somente dentro do meu peito.
Ensina.
Também te ensino, na pequenez da minha vida a santidade de ser mulher.
Aprende o meu corpo.

4.5.06

UM CLOWN-BEAT

(por Geraldo Magela Matias)

Há anos escutamos e testemunhamos discursos e fatos. A História parece uma velha gagá que vive repetindo as mesmas tolices, verborragias. Confesso que não suporto mais abrir as folhas enormes dos jornais, assistir telejornais e ouvir repórteres em emissoras de rádio. A situação é similar no cinema, no teatro e na literatura. As passeatas clamando por paz, muçulmanos entregando seus corpos ao terrorismo, judeus exterminando palestinos, miséria quase total na África, subdesenvolvimento crônico na América Latina (...) Continua

1.5.06

Flor da idade


Uma noite. Essa noite, longa. Longuíssima.
Relembrei enredos, revisitei mitos pra reavivar os motivos da insônia. Encontrei o roteiro de um drama, da tragédia que eu queria reescrita. E foi de fato.
Medéia, a feiticeira, virou Joana, macumbeira, costureira de bunda murcha e peitos caidos, vazios, comidos pelos filhos do seu grande amor.
O livro do Poeta nas minhas mãos, ficando marcado de suor, de restos, fragmentos da pele dos dedos. Nos cantos a saliva, lágrimas e sonhos.
Curiosa eu olhava. Até onde isso vai? Uma praia, o mar, outros sertões, cubículos num universo de concreto. Prisões.
Meu sangue escorria, serpenteando vales e memórias. Sagrada fonte da vida, longe da magia de seres míticos, reviravam as entranhas, estranhas ondas vontade.

Medo sim, lembro da voz do riso e choro. Já é muito tarde, preciso ir, preciso.
Sangue, tempo, pele, vinho, dias, suor, toque, pena, vida, dedos, saudade, tremor, pelos, vulva, dores, calor, calor, calor, calar.... Silêncio.
Meu peito estúpido trocava um samba por modinha.


A melodia, divido: (Ouve)

Flor da idade


A gente faz hora, faz fila na vila do meio dia
Pra ver Maria
A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia
A porta dela não tem tramela
A janela é sem gelosia
Nem desconfia Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor

Na hora certa, a casa aberta, o pijama aberto, a família
A armadilha
A mesa posta de peixe, deixe um cheirinho da sua filha
Ela vive parada no sucesso do rádio de pilha
Que maravilha
Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor

Vê passar ela, como dança, balança, avança e recua
A gente sua
A roupa suja da cuja se lava no meio da rua
Despudorada, dada, à danada agrada andar seminua
E continua
Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor

Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo
Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora
Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava
Rita que Amava Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto
que amava a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha



Chico Buarque/1973
Para a peça Gota d´água de Chico Buarque e Paulo Pontes

22.4.06

Trinta segundos

Já é noite, a mesa posta, flores, velas.
Um último cigarro antes do enredo. A fumaça azulada envolve a sala. Conheço a névoa, ela é minha ponte. Quanto mais denso o ambiente, maior o meu domínio.
Uma garrafa de vinho, caro. É deste que ela gosta, eu sei.
Quando ele chega, eu o ajudo a se preparar. Arrumo a camisa, ajusto a gravata. Tudo tem que estar perfeito. Pra ela.
Ele tem lindos olhos, mirando o vazio. Acredita mesmo que é dono das suas vontades. Tolo.
Falta pouco, ela já está chegando. Meu coração bate rápido. Ele permanece imóvel.

- Entra, senta. Não tenha pudores.

Linda. Vestido vermelho, salto alto, olhos de uma doçura indescritível, um pouco tristes.
Minha deixa, a regência. Cada gesto, o tom das palavras, o ritmo dos corpos, tudo sob meu comando.
Ele serve o vinho, que eu trouxe. Espera minhas instruções. Ela se encanta com aqueles olhos, sem perceber seu vazio. Agradece àquelas mãos e não sente que são as minhas. Oferece-lhe a boca. Um sorriso, uma promessa, amor.
Faço meu trabalho. Os aproximo, provoco, deturpo. Será que não sabem nem beijar?

- Cola tua boa na dela, vai. E você deixa tua língua brincar no gosto do vinho, dele.


Nos ombros delicados as mãos firmes. Curvas estonteantes e as pernas e a camisa aberta...

Chega! Não posso mais olhar.

(Que gosto tem o vinho que envenena minha amada e a joga nos braços dele?
Porque não a minha boca que suplica pelo seu desejo?)


Estáticos. Pernas, braços e línguas esperam a próxima batida do meu coração.

Ela o beija. Ele lê nos seus olhos um mundo sem respostas.
Ela o ama. Ele esquece da carne e questiona sua existência.

Na próxima batida do meu coração, tudo estará acabado.

13.4.06

Mensagem de Páscoa






A morte é fato.
Durante a espera, um caminho vazio que pode aumentar o desejo de aproximar o fim.
Curioso perceber que apesar do niilismo há ainda diferentes perspectivas, e um dinamismo cíclico. Do começo ao fim, tudo muda. Cada pequena morte traz consigo a semente de uma nova realidade. Simplesmente outra.
Não sei se foi pela festa da gula por chocolates, mas acabei lembrando da abertura do Capra no seu livro Ponto de Mutação, tratando deste limite de morte e renascimento que pontua a vida.

“A término de um período de decadência sobrevém o ponto de mutação. A luz poderosa que fora banida ressurge. Há movimento, mas este não é gerado pela força...O movimento é natural, surge espontaneamente. Por essa razão, a transformação do antigo torna-se fácil. O velho é descartado, e o novo é introduzido. Ambas as medidas se harmonizam com o tempo, não resultando daí, portanto, nenhum dano.”

I Ching

Pra esse final de semana, desejo a todos, transformação.
Até a próxima morte.

11.4.06

Leitura

Cheguei cedo. O bar ainda estava fechado.
Esperei. Esperei. Cigarros como companhia.
Finalmente abriu. Subi. Tomei alguma coisa pra limpar a garganta, outro cigarro pra estragar um pouco a voz. Corpo travado pela ansiedade, mas presente. O ensaio. Grandes descobertas acontecem sempre no momento em que não se pode mais testar, treinar, só fazer.

O salto alto, camisa branca, paletó de linho, chapéu, batom e as pernas muito brancas, soberanas no universo cinza. Pronta.
Mais um jogo. Tensão.

Espera. Pessoas chegando. Relógio no bolso, não vou olhar mais. Olho de novo.
Gente chegando? Pouco. Mais um pouco. Só mais cinco minutos.

Tomo meu lugar na arena, na cena, na vida.
A música. Não a minha. Billie Holiday, sensual e arrebatadora. Eles. Escuto.

O tango, minha deixa.
Faz tantos anos. Ainda sei o que é isso? Como se faz? Como se perder pra encontrar depois, livre e orgânico?...
Eu lá, impositiva, passional. Vulgar? Talvez pouco, não na medida certa. Mas eles gostam. Era pra gostar? São as pernas, o sorriso ou eu que me perdi nas intensões?

Paixão sim, isso eu quis. Quero.
Passou a piada, não riram. Vai mal. Engasgo, tropeço, atropelo, esqueço, rio. Feliz. Foda-se a piada. Eles são meus. Todos eles. Olhos atentos a cada pausa. Respirar. Torcem por mim. Não era assim que tinha que ser. Soube depois.
Músicas, marcas, pausas e palavras. Chega ao fim. 10, 15 segundos de vazio. Sem o texto onde me refugiar, exposta, excessivamente maquiada, pernas abertas diante de olhos e bocas e mãos desconhecidas. Eu lá, imóvel, retendo o ar...................

Aplausos pra me tirar do precipício.
Sorriram, acenaram, buscaram meus olhos tentando me dizer alguma coisa.
Parece que gostaram, funcionou.
Entenderam minha paixão?! Perceberam o limiar desafiando a lógica, provocando os sentidos...
Caramba, funcionou mesmo? !
Depois foram rostos e palavras, nomes, contatos. A auto-estima se constrói nos outros. Fiquei feliz.
Lá fora do bar, chuva. De novo.
Porque não me sinto realizada?
Pergunta extremamente idiota. Ele não estava lá. Faltaram seus olhos pra me roubar a concentração, seus ouvidos pra quem eu pudesse me projetar sem sofrer, faltaram suas mãos pra contar, direitinho tudo o que se viu. Faltou sua boca.
A chuva do domingo me levou pra longe, bem longe.
Dentro de mim, uma cadeira vazia.

8.4.06

Toque



(Peguei sem pedir...)


Um curta experimental chamado Danae, postado no Porta Curtas, patrocinado pela estatal Petrobras é digno de seus olhos. Homens e mulheres querem ser tocados, sentidos e beijados - prova de que o corpo existe, num mundo insólito e que descarta tudo, até a arte é descartável. A salvação vem no corpo de uma possível mulher que tem nome de arcanjo, Gabriel. A mulher, abandonada pelo macho, queria prazer, ser sentida, assegurar sua existência. Aparece esse ser, Gabriel, até porque arquétipos hoje em dia são provisórios. Gabriel ensina a mulher a ir em busca. Não ficar esperando. Numa atitude que poderia ser considerada ousada, mas não é mais, a mulher vê um homem angustiado, à sombra de uma árvore. Os sons da metrópole neurotizante não abafam os sussurros dos personagens. O único silêncio dos personagens é em relação aos enormes discursos disfarçados de diálogo. Apenas falas curtas, introspecção total; o único desejo de ódio é imaginado (como sempre acontece no dia a dia) pela mulher: atropela o homem que a abandonara segundos antes. O audio refere-se ao Islamismo, conotando a bestial violência do mundo masculino e machista. Mas Gabriel, arcanjo mensageiro, tráz uma mensagem de salvação. E quem a recebe é Maria, o nome da mulher solitariamente carente. Maria obedeceu, como a mãe de Jesus: "faça-se, Senhor, segundo a vossa vontade". E Maria percebeu que para receber é preciso dar. Você assiste a esse e outros tantos curtas no site http://www.portacurtas.com.br.

Geraldo Magela Matias é jornalista.

6.4.06

Flamenco

(Lendo Geraldo Magela Matias)

Há muito tempo vivo nas águas. Sempre os pés molhados, olhando a praia. Muitas vezes me deixando levar pelas correntes, sem rumo. Volto sempre ao princípio. Dizem que a água é signo de sentimento.
Há poucos dias numa crise de dor, de asma, me afogando, ouvi alguém me chamando a bater os pés no chão e dançar tirando da terra o sustento e a certeza. Aquele impacto da terra seca nos pés e da inundação do peito provocou um sisma.
Sem lembrar de motivos, chorei. Sem saber explicar, chorei muito, até recuperar o fôlego perdido.
Não pretendo decifrar signos. Hoje os sentimentos não me sufocam mais, e as incertezas se acomodam debaixo dos meus pés.

Geraldo, você quer dançar?

Pergunta de criança

Eu assistia ao filme O Pianista, com meu filhinho. Ele tem 5 anos.
No filme, tanta dor, judiação...
Meu pequeno me fulminava de perguntas. Mas porque? Porque matou o homem? Porque bateu no menino? Porque ele parou de chorar? Porque morreu?
Eu tentava explicar que o filme mostrava um tipo de maldade humana, que existiu na época que o filme conta e ainda existe. O filme conta uma história, é feito sem machucar ninguém, tudo é de fantasia. Mas a maldade que ele conta é verdadeira.
Aquele rostinho inquisidor não me dava trégua. Porque o filme mostra a maldade? Ele mesmo arriscou um palpite: É pra ensinar e ninguém mais fazer maldade? É isso sim filho.
Não dava mais. Tive que perceber que era demais pra ele. Desliguei o filme e fui levá-lo pra cama, fazer cafuné, contar estorinha, dar beijos, muitos beijos de boa noite.
De repente me chamou e disse: Mamãe, lá no seu teatro faz história de maldade?
Tudo o que fiz foi sufocar meu choro num abraço demorado e dizer que não, mesmo doendo muito.

4.4.06

É a lei.

O que o amor une,
o desamor do tempo apodrece,
gangrena,
contamina,
mas não solta.

3.4.06

Homenagem ao Louco - Claudio Rosa

Ele é intenso, apaixonante, viril.
Me deixa maluca, quando me roça a nuca com a barba malfeita...
O teatro.

Ela, não conheço muito bem.
Claro que a vejo, invejo, admiro.
Até guardo um desejo secreto, um flerte.
Parece que ela nunca vai me notar...
A literatura.

Fugindo às convenções,
prefiro olhar a minha volta,
sorrir pra quem me faz bem
e descobrir que graça a vida tem.

Seja ele ou ela.
Me entrego ao Amor e à Paixão
me embriagando no mundo das palavras.

1.4.06

Capítulo das perguntas - nº 7

Por que dói tanto?

Os ombros nem se movem, curvados pra frente, ensaiando uma queda definitiva.
A garganta, reclama da obrigação da falar. Vingança. Som monocromático, linear, inseguro, vazio.
O peito engessado não se enche de ar. Não tem espaço pra expandir, represando sentimentos como uma esponja.
Os olhos ardem e não choram. Logo vertem areia pelo rosto, eternemente sonolento.
O ventre se rebela. Não é hora. Suspiros contidos pelo aprendizado social de não reclamar e obedecer às regras. As minhas, costumeiramente estéreis.
As pernas me suportam sem reclamar. Mas imprimem uma falta de impulso e vivacidade.

Braços cansados, jurando uma bandeira que não me serve.
O cérebro vagueia, sem vontades.

É pra se suportar e calar?

Eu sei, lembro bem...
Disse que não ia me apaixonar.
Agora acho que não tenho escolha.

30.3.06

Resposta













Parti de uma folha de papel branco desenhado de palavras a construir uma realidade paralela.
Precisava conhecer a mente criadora, mergulhar num universo denso, enevoado, obscuro do que seja o instante da criação do texto.
Sem pensar me joguei em cartas, frases, memórias de vozes. Escolhi fragmentos de corpos que me trouxessem pra perto um autor idealizado ao avesso.
Busquei a embriagues pra justificar clichês. Encontrei na fumaça dos cigarros um lapso temporal em que a obra toma vida própria e subverte o poder do escritor.
Num único domingo, de solidão extrema, tomei uma overdose de cinema noir. Sombras e contrastes, tudo cinza, o tango, o cigarro, a narrativa que nos leva pra dentro da estória como fiéis confidentes de personagens maravilhosamente imperfeitos.
Ainda não consegui chegar no fundo. Estou caindo.
Minha busca prossegue e a paixão desta vez faz parte da cena. Não posso fugir.
Quem entende a mente de um escritor apaixonado por sua musa?
Não. Não sou eu, a musa. Sou só o reflexo do arrebatamento.

27.3.06

Capítulo das perguntas - nº 6

Meu pai, marceneiro talentoso, me prometeu que fará os elementos de cena pra nosso espetáculo, e disse que isso é um incentivo de pai à minha carreira.
Começamos a calcular quantidades de MDF para colocar no projeto de patrocínio junto às madeireiras. Fiquei surpresa quando papai disse que o melhor seria fazer uma vaquinha com o pessoal da peça pra comprar o material. Bem melhor do que ficar mendigando pedacinhos de madeira!

Então é assim que somos vistos? Mendigos de retalhos e sobras. Mas e a contrapartida financeira, a exposição do nome e da marca, o marketing no saguão do teatro? Não deveria ser uma parceria, uma troca de interesses que ao final possibilitam o acontecimento teatral?

Que susto. Fiquei imaginando o que passa pela cabeça das pessoas com relação aos prêmios de fomento à cultura.

Eu e papai conversamos por mais de uma hora. Ele entendeu o funcionamento da parceria e do patrocínio e me deu uma folga. Só os sentimentos de inadequação e angústia ficaram martelando na minha mente.

24.3.06

Distração

Hoje saí para comprar matéria-prima para meu trabalho. Uma chapa de borracha de EVA. Já tinha ido até lá muitas vezes, na Avenida Rangel Pestana. Como em São Paulo tudo demora, levei o tocador de CD com uma seleção musical que só quem me conhece é capaz de entender: Astor Piazolla com Libertango, Carlos Gardel com Scent of Woman e Zeca Baleiro cantando Isso Aqui ta Bom Demais do Dominguinhos.

Ouvi o Cd no ônibus repetindo as músicas várias vezes e me deixando levar pela mistura de sons, e imagens que se formavam na minha mente distraída, que quase esqueci de descer no ponto do Metrô Parque Dom Pedro.

Já na calçada, liguei o piloto automático e comecei a andar no ritmo do Perfume de Mulher. Pena que esqueci de ajustar a rota. Andei por uns quinze minutos na Avenida Alcântara Machado, sem perceber que ela não tinha as mesmas lojas que eu conhecia há uns cinco anos. Foi preciso alcançar o Viaduto Alcântara Machado pra eu perceber que estava no lugar errado! Um pouco confusa comecei a pensar numa maneira de chegar a Rangel Pestana sem ter que voltar o caminho todo. Não tive dúvidas e entrei à esquerda numa ruazinha que tinha toda cara que ia me levar exatamente pra fora da rota, só que empolgada com os tangos e impetuosa como nunca enfrentei a sensatez e encarei a viela. Piazolla e Gardel se revezavam na imposição do ritmo dos meus pés. Era tão intenso e vibrante que eu quase corria, percorrendo uma distância grande, de um lugar cada vez menos familiar.

A certa altura resolvi acender um cigarro, mas o vento não colaborava e tive que parar. Eu devia estar com cara de tango, ou sei lá o que, e quando dei por mim tinha um homem, aparentemente uns cinqüenta anos vindo direto na minha direção. Ele falou comigo qualquer coisa que não ouvi, com os fones quase no último volume, mas acho até que percebi do que se tratava.

Estava me perguntando quanto era? É isso? Deseducadamente, como também não tinha ouvido sua pergunta eu continuei meu caminho. Numa fração de segundo eu revisei toda minha roupa pra ver se estava dando essa pinta: Minha mini saia nem era tão mini assim, a blusa azul clarinha não tinha atrativos, quem sabe as unhas compridas e pintadas de vinho. Sei lá. Alguns metros depois tudo foi esclarecido, eu tinha parado para acender o cigarro bem na porta da zona!

Continuei minha caminhada, rumo ao lugar errado, agora com mais elementos pra brincar no meu cérebro e me distrair do meu objetivo que era comprar EVA. Sol muito forte. Passos rápidos. Música alta. O cigarro. O puteiro. Minha cabeça assumiu a brincadeira de ir por sua conta e passei a imaginar a cena: No palco o tango. Ele de chapéu cobrindo o rosto, ela lindíssima, de vestido vermelho. Rostos fechados, só o peito pulsando demonstrava a grande paixão daqueles corpos. A conquista, o desejo, o amor. Pernas e braços impetuosos e cínicos se enlaçando ora como gatos macios e sensuais, depois como cobras prontas pra traição.

Nesse clima saí finalmente das vielas e me deparei com a rua da Mooca. (Bem fora do objetivo que era a Rangel Pestana). Minha única chance era seguir até o final, alcançar a Avenida do Estado, chegar novamente ao Metrô e começar do ponto inicial, cuidando pra entrar na rua certa, desta vez. A essa altura já estava no segundo cigarro, as pernas já meio bambas pela caminhada forçada e o sol ainda mais forte. Distraí-me do tango e começou a tocar o chote de Dominguinhos. Imagina eu andando, rindo do meu péssimo senso de direção e cantando no meio da avenida: Olha que isso aqui ta muito bom, isso aqui ta bom demais. Olha quem ta fora quer entrar, mas quem ta dentro não sai!

De novo os neurônios tomaram conta da situação, mas dessa vez de um jeito engraçadíssimo. Eram a linda mulher de vermelho e o amante latino dançando uma deliciosa quadrilha de São João e minha imaginação dava o tom da insanidade pro novo jogo de conquista e desilusão do casal de amantes.

Pra resumir. Achei a avenida, achei a loja, comprei o EVA, passei num bar pra comprar outro maço de cigarros, andei mais uns 15 minutos até o ponto de ônibus e voltei pra casa com uma cena novinha, brincante no meu cérebro. Até poderia virar cena de verdade e ir pro palco, por que não? Será que algum louco seria capaz de criar essa baderna toda, ou isso é delírio meu sob efeitos da nicotina e do Sol?

Maluquice?!

Pois é! Olha que isso aqui ta muito bom.
Isso aqui ta bom demais.
Olha! Quem ta fora quer entrar.
Mas quem ta dentro não sai.

21.3.06

É o ator um inimigo de si mesmo?

Por Johnny Kagyn

Olhe para si e para o caminho que o trouxe até aqui. É um caminho longo, curto? Não importa a extensão o que lhe trouxe até aqui foram sonhos. Sonhos íntimos. Sonhos inconfessáveis. Sonhos. Olhe para si e veja apenas você mesmo. Seus olhos, seu caminhar, a maneira como seus braços balançam. Seus medos, seus erros, o que te fez chorar. Este é você, o ator.

Agora sem deixar de enxergar a si próprio, responda: o quanto você está disponível a mostrar deste corpo, desta alma e desta mente? Pouco, muito?
Agora, considerando-se apenas ator e não mais ser humano, olhe para si como instrumento.
Olhe clinicamente para cada parte deste instrumento. Analise impiedosamente tudo.
A única pessoa a quem você não deve enganar é a si mesmo. Liste suas virtudes. Liste suas imperfeições. Seja impiedoso consigo mesmo.
Enxergue-se como o seu próprio inimigo. Aquele a quem você deve vencer, superar e subjugar. Quanto você está disposto a subjugar de si mesmo?

Ser ator exige uma busca e uma luta constante dentro de si mesmo. Exige que se seja sincero. Exige disponibilidade para se expor. Exige coragem para ver suas imperfeições e livrar-se de suas máscaras sociais.
Você está disposto?

Trabalhe!
Trabalhe para vencer seus automatismos, suas idiossincrasias, seus limites e seus domínios.
Trabalhe para criar a personagem. Trabalhe para destruir-se.
Esteja disponível para o erro. Busque o acerto.
Agora pare.

Deste ponto em diante lhe será exigida a disponibilidade.
Deste ponto em diante lhe será exigida a vulnerabilidade verdadeira.
E apenas você pode verdadeiramente fazer estas exigências.
Leve em consideração que ir além deste ponto pode significar destruir-se dolorosamente; e continuar neste ponto vai significar acomodar-se no seu confortável nível atual.
Por você só você mesmo deve decidir.

Johnny Kagyn é dramaturgo do Coletivo SuperNova

Kagynkagyn@msn.com

http://infinitoparticular.blogspot.com/

17.3.06

Sono

Quando sabe é Deus.
Quando não sabe é vírus.
Transito mole, fluido, confuso num limiar de névoa.

Fumaça do cigarro,
ardor dos olhos,
a dor na garganta,
e o amor que dói mais.

Capítulo das perguntas - nº 5

Por Fernanda Sanches
O que, dentro de mim, torna as coisas tão difíceis?

...respondendo com outra pergunta:
Por que você não reage?